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13/06/2019 até 18/08/2019
AÇORES: A LITERATURA DESENHADA


O ARTISTA INSULAR

O intercâmbio entre as ilhas dos Açores e Joinville

A viagem teve como objetivo a imersão cultural pelas nove ilhas dos Açores, um arquipélago de formação rochosa vulcânica na imensidão do Oceano Atlântico Norte, Região Autônoma de Portugal a 1.300 km do Continente.

A missão inicialmente foi marcada por nossa participação como palestrante no XXIV Congresso Internacional de Antropologia de Ibero-América / Museus, Turismo e Patrimônio, a convite de seus diretores Luiz Nilton Corrêa do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, e Angel Espina Barrio da Universidade de Salamanca/Espanha. Entre mais de 200 inscritos representantes de 18 países da União Europeia, Américas, Ásia, e Continente Africano, atentos ao debate sobre Públicos dos Museus – Encontros e Percepções, nosso case de sucesso foi “Quem vier de bicicleta não paga”, numa clara referência à acessibilidade cidadã deste Instituto sediado na chamada Cidade das Bicicletas.

A presença no evento acadêmico nos proporcionou a assinatura do Protocolo de Cooperação entre a Câmara Municipal de Ponta Delgada (Açores) na pessoa de seu presidente José Manuel Bolieiro, e o Instituto Internacional Juarez Machado (Brasil), visando intercâmbio de experiências, informações e documentação de interesse histórico, cultural e artístico.

Em consequência, as semanas seguintes asseguravam as boas perspectivas. Alugamos – Eula Regina Maciel e eu – um pequeno alojamento caseiro junto ao centro histórico da cidade e passamos a conviver com sua população na manutenção das tarefas cotidianas, nas responsabilidades laborais, nos meios de transporte popular, nas visitas às suas residências partilhando de seus costumes, e nos registros informais de seus anseios mais simples: os saberes, os fazeres, os sabores e os falares.

Apesar da distância geopolítica entre as ilhas, cujo acesso se dá em pequenas aeronaves e por embarcações singrando os mares exploramos, dentro do possível, os territórios da Ilha de São Miguel do Arcanjo, a cosmopolita Angra do Heroísmo na Ilha Terceira, a portuária Ilha do Faial e a majestosa Ilha do Pico. Ao observar o comportamento dos gestores públicos e privados, dos criadores e dos visitantes nos inúmeros espaços culturais na região, nos surpreendemos com a impactante dinâmica de inserção globalizada do Centro de Arte Contemporânea Arquipélago, com o zelo pela preservação da história nos núcleos do Museu Carlos Machado, com a imponência dos elementos de arte sacra nas antigas igrejas, com o respeito às habilidades do homem nos vinhedos de pedra bruta no Museu do Vinho e Museu Baleeiro, com a latente intelectualidade nos lançamentos literários, com as intervenções artísticas urbanas, com a musicalidade erudita, com a modernidade nas galerias e atelieres livres de arte nas pequenas aldeias.

Mas algo ainda mais nos encantou: o Centro Cultural da Caloura, situado na Canada do Castelo numa das freguesias da municipalidade da Lagoa. Por sugestão da conservadora de museus e pesquisadora micaelense Margarida Teves, fomos conhecer suas instalações, acompanhados pelo poeta e escritor picaroto Urbano Bettencourt e pela escritora e pesquisadora catarinense Lélia Nunes. E recebidos pelos donos da casa, fundador daquele pitoresco, isolado, mas dinâmico espaço, o veterano pintor, desenhista, gravador, professor, escritor e animador cultural Tomaz Borba Vieira e sua esposa Conceição, entre exposição de suas obras e de jovens artistas, jardins com esculturas, mostra temporária de fotografias, venda de livros e produtos de arte mais chá com biscoitos e longas e boas conversas.

Falamos essencialmente de arte, da vocação e dos valores éticos de ser artista, da trajetória e do conhecimento no ofício de curador, trocamos ideias para aproximação entre Açores e o Brasil; percebemos o respeito mútuo e sinais de nova amizade.

Semanas após, retornei ao Centro Cultural para me despedir e Tomaz confidenciou um convite especial: estender nossa conversa em seu ateliê de artista, que amistosamente chama de refúgio. Lá, entre chassis de madeira, telas inacabadas, tintas, pincéis e cavaletes, o mestre – observado em silêncio por sua gata de estimação – havia separado incontáveis esboços, ilustrações, desenhos livres, gravuras e estudos sobre papel. Escolhemos juntos algumas coleções que agora estão aqui confiando-me a curadoria desse rico material para sua primeira exposição no Brasil.

Optamos por trabalhos mais intimistas, àqueles com as marcas da genética da criação, da travessia gráfica para obras finalizadas do indelével diálogo com a literatura, palavra & imagem, em total acordo com o espaço expositivo da nossa biblioteca de arte, e, consequentemente, o título da mostra Açores: a Literatura Desenhada. A série de caricaturas de literatos da língua portuguesa – de Camões à Fernando Pessoa, de Bocage à Mia Couto, - outra de emblemáticas embarcações da diáspora açoriana sobre linhas do horizonte, paisagens naturais e figuras que ilustram seu livro O Carcereiro da Vila e Outras Estórias editado pela Artes e Letras, são fundamentais para a iniciação no universo artístico desse mestre da pintura insular.

A equipe do Instituto Internacional Juarez Machado sente-se orgulhosa ao expor pela primeira vez no Brasil as obras de Tomaz Borba Vieira e grata pelo imenso gesto de confiança que o artista deposita no trabalho aqui desenvolvido. 

Edson Busch Machado

Curador – Ilha, 2019 



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